Um véu cintilante, pois morada de mil vagalumes, cobre o corpo de minha gueixa. O ar todo em volta é quente, aquecido pelo hálito dos anjos, e cheira a um campo de brancos jasmins, como a pele do meu desejo. Sob seus pés, gira o mundo das minhas fantasias incendiárias, posto que minha febre ferve o suor de minha corrida. Por ela. Pela curvatura de sua espinha, que lhe empina os seios macios e fartos, e leva-lhe a boca à distância de um impossível.
Antes, diante de tamanha doçura, caía eu no abismo do falso não-querer. Hoje, tempo transformado em maduro levar de gente ao finito do descaso, àquelas formadas ancas levo os olhos do querer e nada mais há a ser quisto: não posso ver-me refletido entre a moldura dos cabelos negros, retido nos espelhos ainda mais negros, olhos cerrados.
Em uma outra vida, talvez.
sexta-feira, 15 de maio de 2009
It's a process. Anything is a process.
Dona Chumbinha, do interior de Macuripe, com toda a sua simplicidade de mulher do interior deste Brasil, envia-nos uma carta com as suas dúvidas a respeito da intransigência febril da moderna psicologia diante das peculiaridades do comportamento pós-traumático contido nas irrelevâncias do cotidiano, excetuando-se os conceitos junguianos do status quo aparente e significativo, e, apesar das consequências factíveis dessa provável intransigência, o resultado do subentendimento da hipérbole contaminante das ações futuras.
Bem, Dona Chumbinha, diante dos fatos irrefutáveis, acreditamos que esta é a hora propícia para sentar-se na varanda e tomar um café quentinho. Café quentinho, Dona Chumbinha...
Bem, Dona Chumbinha, diante dos fatos irrefutáveis, acreditamos que esta é a hora propícia para sentar-se na varanda e tomar um café quentinho. Café quentinho, Dona Chumbinha...
terça-feira, 12 de maio de 2009
Os leões
Oitenta e quatro dias no mar e nenhum peixe. O que é a solidão? A ausência dos outros ou a ausência de si próprio?
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Do passado distante
Linhas
Eis, dentre tantas luas e sóis,
Estes últimos e seus arrebóis,
O fim da espécie como a conhecemos,
Melhor dizendo, como a imaginávamos.
E éramos únicos e plurais,
E assim escrevíamos em nossos umbrais
Com a arrogância que ainda temos,
Com ela sempre que nos enterrávamos.
Vamos tarde.
Vamos medidos por nossos relógios.
Peça e conceito.
Eis, dentre tantas luas e sóis,
Estes últimos e seus arrebóis,
O fim da espécie como a conhecemos,
Melhor dizendo, como a imaginávamos.
E éramos únicos e plurais,
E assim escrevíamos em nossos umbrais
Com a arrogância que ainda temos,
Com ela sempre que nos enterrávamos.
Vamos tarde.
Vamos medidos por nossos relógios.
Peça e conceito.
Onde desnudam-se as lembranças de ti, outrora;
Onde libertam-se as vontades de agora, e toda hora;
No lugar em que se encontram a pressa e a demora,
É onde estou.
Quando desnuda-te em teu quarto, e não vejo;
Quando liberta-te dos nós, e perco o ensejo;
No tempo em que se misturam o descaso e o desejo,
É quando morro.
Porque desnudo-me só diante de ti, e não te importas;
Porque liberto-me às tuas vontades, e trancas portas;
Nas respostas de minhas angústias, vivas e mortas,
É porque te adoro.
Onde libertam-se as vontades de agora, e toda hora;
No lugar em que se encontram a pressa e a demora,
É onde estou.
Quando desnuda-te em teu quarto, e não vejo;
Quando liberta-te dos nós, e perco o ensejo;
No tempo em que se misturam o descaso e o desejo,
É quando morro.
Porque desnudo-me só diante de ti, e não te importas;
Porque liberto-me às tuas vontades, e trancas portas;
Nas respostas de minhas angústias, vivas e mortas,
É porque te adoro.
sábado, 9 de maio de 2009
Caminhando sob efeito do oxigênio / sobre o feito de oxigênio
- Westinghouse! Criado estúpido!
Lord Sbronski, filho de Lord Sbronski Senior, neto de Lord Sbronski Master, casado com Peluda Sbronski e multimilionário do ramo de treinamento de espermatozóides bovinos da raça Birmingham Amarela, acordara irritado.
- Westinghouse! Onde está o meu mingau, criado maldito???
Theodore Springsjersey Westinghouse, criado de Lord Sbronski, era filho de Makaloola Bingudo, por sua vez filho de Makaloola Bingudo Senior, escravo das estepes africanas trazido, obviamente, das estepes africanas por Lord Sbronski Master, nos idos de 1863. A mãe de Westinghouse, dizem, foi a primeira enceradeira elétrica criada nos Estados Unidos. Esses africanos comem o que veem pela frente...
- Westinghouse! Seu degenerado! Se meu mingau não estiver sobre a mesa da terceira sala de café da oitava cozinha à direita do campo de golfe 2 em um minuto, juro que o atirarei aos leões! E tenho muitos deles!
Lord Sbronski já babava de ódio visceral quando Westinghouse, suando em bicas e apresentando seu conhecido tique nervoso dos momentos de grande tensão - seu pé esquerdo sapateava poemas de Baudelaire em código morse -, adentrou a sala.
- Lord Sbronski, senhor!
O velho percebeu imediatamente o olhar de terror do octogenário servo. O que teria ocorrido? Sua mente perspicaz elaborou 217 prováveis respostas, classificadas por palavra-chave em ordem alfabética e planilhadas com destaque em negrito nas que tivessem encontros consonantais. Tudo isso entre um piscar de olhos e outro de Westinghouse.
Aquele momento de incrível pressão psicológica provocou um relâmpago que iluminou toda a Califórnia, apesar de estarem na costa atlântica. O ruído do trovão, tal e qual o rugido hediondo de lúcifer e seus chiuauas ensandecidos aos se verem sem mais humanos de almas limpas, estremeceu as bases da mansão e do partido democrata. Estivesse eu lá, simples narrador desta história, borraria-me todo.
Lord Sbronski mirava Westinghouse com seus olhos de ave de rapina, praticamente uma codorna colérica, aguardando uma explicação plausível para a demora e para o terror explícito do criado.
(Neste momento, obrigo-me a encerrar o conto, com promessas de terminá-lo em breve. Como diria Baudelaire, vou revoar.))
Lord Sbronski, filho de Lord Sbronski Senior, neto de Lord Sbronski Master, casado com Peluda Sbronski e multimilionário do ramo de treinamento de espermatozóides bovinos da raça Birmingham Amarela, acordara irritado.
- Westinghouse! Onde está o meu mingau, criado maldito???
Theodore Springsjersey Westinghouse, criado de Lord Sbronski, era filho de Makaloola Bingudo, por sua vez filho de Makaloola Bingudo Senior, escravo das estepes africanas trazido, obviamente, das estepes africanas por Lord Sbronski Master, nos idos de 1863. A mãe de Westinghouse, dizem, foi a primeira enceradeira elétrica criada nos Estados Unidos. Esses africanos comem o que veem pela frente...
- Westinghouse! Seu degenerado! Se meu mingau não estiver sobre a mesa da terceira sala de café da oitava cozinha à direita do campo de golfe 2 em um minuto, juro que o atirarei aos leões! E tenho muitos deles!
Lord Sbronski já babava de ódio visceral quando Westinghouse, suando em bicas e apresentando seu conhecido tique nervoso dos momentos de grande tensão - seu pé esquerdo sapateava poemas de Baudelaire em código morse -, adentrou a sala.
- Lord Sbronski, senhor!
O velho percebeu imediatamente o olhar de terror do octogenário servo. O que teria ocorrido? Sua mente perspicaz elaborou 217 prováveis respostas, classificadas por palavra-chave em ordem alfabética e planilhadas com destaque em negrito nas que tivessem encontros consonantais. Tudo isso entre um piscar de olhos e outro de Westinghouse.
Aquele momento de incrível pressão psicológica provocou um relâmpago que iluminou toda a Califórnia, apesar de estarem na costa atlântica. O ruído do trovão, tal e qual o rugido hediondo de lúcifer e seus chiuauas ensandecidos aos se verem sem mais humanos de almas limpas, estremeceu as bases da mansão e do partido democrata. Estivesse eu lá, simples narrador desta história, borraria-me todo.
Lord Sbronski mirava Westinghouse com seus olhos de ave de rapina, praticamente uma codorna colérica, aguardando uma explicação plausível para a demora e para o terror explícito do criado.
(Neste momento, obrigo-me a encerrar o conto, com promessas de terminá-lo em breve. Como diria Baudelaire, vou revoar.))
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Mal posso esperar pelas aposentadorias de Hugo Chaves e de Evo Morales, que virão, caso não haja nenhum golpe de estado em Pobre Simon Bolivar F.C., lá para dois mil e benzodeus. Procurei em alguns sites, desses que vendem ingressos antecipados, inscrições para que eu pudesse participar de suas palestras futuras. Não encontrei nada... Acredito que seria ótimo se os dois se apresentassem juntos, e até bolei um roteirinho teatral para a introdução, no bom sentido, de suas palestras. Eis o maldito:
Cenário - Auditório qualquer em um pequeno, senão minúsculo, país qualquer.
Luz - Divina, embora envergonhada.
Som - Natural. Todos sabem que os idiotas gritam.
Ação - Entra Morales, montado em um cavalo capitalista domado, chamado First National Rocinante, pelo lado esquerdo do palco. Desmonta, retira o poncho vermelho e pendura sobre a cabeça do cavalo. Este, então cego, encontra a saída pela direita. É ovacionado (o cavalo, não Morales).
Também pelo lado esquerdo, surge Chaves. Imponente. Visceral. Bolivariano. E pisando na bosta fresca do First National Ban.. Rocinante. Abraça Evo fraternalmente, à moda dos lhamas, cheirando-se e cuspindo-se um ao outro.
Ambos suspiram profundamente, sorriem para a platéia e começam seus discursos.
Lindo! Lindo! Lindo!
Cenário - Auditório qualquer em um pequeno, senão minúsculo, país qualquer.
Luz - Divina, embora envergonhada.
Som - Natural. Todos sabem que os idiotas gritam.
Ação - Entra Morales, montado em um cavalo capitalista domado, chamado First National Rocinante, pelo lado esquerdo do palco. Desmonta, retira o poncho vermelho e pendura sobre a cabeça do cavalo. Este, então cego, encontra a saída pela direita. É ovacionado (o cavalo, não Morales).
Também pelo lado esquerdo, surge Chaves. Imponente. Visceral. Bolivariano. E pisando na bosta fresca do First National Ban.. Rocinante. Abraça Evo fraternalmente, à moda dos lhamas, cheirando-se e cuspindo-se um ao outro.
Ambos suspiram profundamente, sorriem para a platéia e começam seus discursos.
Lindo! Lindo! Lindo!
Ah, ouvirão de muitos as palavras ácidas da amargura contemporânea. A amargura geral, fruto do isolamento total. O mundo internético consumindo as almas todas, e todas tolas. Dirão que nunca mais verão parques em flor, ou sentirão o cheiro verde da grama fresca. Só nas histórias dos blogs- memória dos velhos terão, desenhadas em canvas digitais, as imagens das crianças rosadas e cheias de dentes brancos correndo, dos cães brincando com seus dentes ainda mais brancos, dos pássaros maviosos, cantando, ainda que sem dentes...
Gritarão, com a certeza dos que retêm em si toda a sabedoria do universo, que as vidas, hoje, são de plástico, e que não caberão no lixo da reciclagem de deus. Creiam. Os solistas, masturbadores dos teclados, enfim, aqueles jovens que foram criados com uma tela de cristal líquido à frente, jamais verão o mundo como o mundo é: finito, mesmo depois de fechada a janela.
Só os velhos de memória analógica sobreviverão à realidade. Mas apenas até que a morte os acolha.
Gritarão, com a certeza dos que retêm em si toda a sabedoria do universo, que as vidas, hoje, são de plástico, e que não caberão no lixo da reciclagem de deus. Creiam. Os solistas, masturbadores dos teclados, enfim, aqueles jovens que foram criados com uma tela de cristal líquido à frente, jamais verão o mundo como o mundo é: finito, mesmo depois de fechada a janela.
Só os velhos de memória analógica sobreviverão à realidade. Mas apenas até que a morte os acolha.
Festim Diabólico
Em Festim Diabólico, excelente filme de Hitchcock, o personagem de James Stewart é convidado por dois de seus alunos para participar de uma festa no apartamento deles. No centro da sala de estar, dentro de um baú, está o corpo de um colega de classe, assassinado por ambos.
Sintam-se convidados a esta festa. Perambulem. Conheçam-se. E não hesitem em entrar no baú...
Sintam-se convidados a esta festa. Perambulem. Conheçam-se. E não hesitem em entrar no baú...
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